O cara subia naquele palco de tábuas e quebrava o quadril, as pernas indo e vindo alucinadamente. A voz fazendo as meninas sonharem, porra! As garotas cantavam, gritavam, urravam. Ninguém dançava daquela maneira, depois todos garotos também tentavam fazer o mesmo. A poeira levantava no meio da histeria. todos tentando a mesma coisa. Ele com aquela cara de bebê e elas adoravam. Todas desejavam trepar com ele. Tudo ali, naquela cidadezinha de merda. Então ele sorria e algumas tinham orgasmos, e nós olhando, putos da cara. As garotas que queríamos baixar as calcinhas, as garotas que ilustravam nossas punhetas, estavam todas lá. E todas queria um só pau. Porra, o cara era o rei. A voz ecoava, lambuzava, trovejava. As conções fazíam as meninas sonharem. Depois ele foi embora e começou a aparecer nas capas de revistas e na televisão. Os caras ainda invejavam, as garotas ainda sonhavam em ir para cama com ele. Nós sabíamos, éramos de outro time. Nos tornaríamos escritores, açougueiros, vendedores, advogados. Nunca aquele cara e a merda é que sabíamos.
Nunca seríamos como aquele cara que dançava sobre o palco de tábuas
Publicado agosto 8, 2008 r Uncategorized Deixar um Comentário“Um caça bom para manobras e os Russos loucos para abater os fodidos caças F15 e 16 da porra dos americanos”, dizia Rubens, o cara louco pelos Migs. “Eu queria pilotar uma belezinha dessas e riscar o chão num rasante, disparando contra os homenzinhos lá embaixo. “Todos se cagando de medo”, completava Rubens quase em transe, imaginando à cena.
O cara veio parar aqui na pensão numa noite calorenta de março. Estava tudo uma merda só. Um calor fodido daqueles e eu aqui nessa pensão de merda rodeado por baratas e insetos que voavam ao redor da lâmpada pensando que era algum tipo de astro celeste. Talvez um sol, um planeta ou uma lua, qualquer uma dessas porras. Pelos menos eu imaginei isso, os insetos como seres do espaço voando ao redor de um planeta luminoso. Uma noite que só tinha restado o tédio. Até mesmo a Leila, uma garota que trabalha numa boate não estava aqui. Uma bunda que é qualquer coisa de fantástica. Então chegou o cara com sua maleta, pediu um quarto e subiu. Minutos depois ele apareceu aqui embaixo e falou dos tais caças Migs. Quase toda noite ficávamos batendo papo, ele me mostrou os pôster, revistas e tudo que tinha sobre aqueles aviões. Duas semanas depois o cara se mandou. Me deixou de presente um velho pôster de um Mig 21. Porra, esses Migs são de foder.
Kerouac embriagado, atravessando a América, dormindo com mariposas e anotando seus sonhos enquanto em algum quarto pequeno, triste e decadente, um velho escreve contos sujos para a Xota. Garrafas de cerveja vazias se amontoam num canto e tudo se embriaga de solidão, tédio e desespero.
O Fusca dá o máximo de si. O pedal do acelerador beija o assoalho empoeirado do carro. Porto Alegre agora é uma miragem que desapareceu no horizonte como um fantasma capenga.
Quando criança, antes mesmo de assistir Jack e seu parceiro com suas motocicletas em estradas sem fim, antes de ouvir Born To Be Wild, Carlos ouvia estórias sobre os desertos gaúchos. Depois de ouvir tudo aquilo, sobre os homens que morriam de sede, que se perdiam e eram picados por serpentes sob um sol escaldante, Carlos ia para a janela de sua casa com mil imagens e pensamentos em sua cabeça. Lá fora vaga-lumes, grilos, besouros e outros insetos pareciam enlouquecidos na escuridão. Carlos observa os insetos, as folhagens, a grama verde, os campos e as árvores que cercam tudo. Tudo inacreditavelmente verde, úmidos do orvalho da noite e gotejando vida por todos os lados. Carlos não podia acreditar nos desertos gaúchos, mas nunca conseguiu esquecê-los.
O motor do Fusca roncando grotescamente sob o chão árido do deserto. O sol queimando a lataria do carro, a retina dos olhos de Carlos, os pedregulhos, a rala vegetação. Pequenas pedras saltavam para os lados como se tivesse vida enquanto Carlos zunia com seu automóvel. Horas se passaram e Carlos continuava sem parar. “Um monte de nada”, voltou a pensar olhando para a paisagem crua.
Sem saber o motivo Carlos sentiu vontade de dar um cavalo de pau no meio daquele deserto. “Ninguém atravessa um deserto sem dar um cavalo de pau”, pensou Carlos com a garganta seca. Carlos acelerou o que pode, o velho Fusca rosnou como um valente monstro cansado, o toca-ficas esgarçando Born To Be Wild e tudo sacolejando e poeira e pedregulhos voando e ele com a mão grudada no freio de mão. Então o caralho do Fusca valente girou, girou, girou e tudo rodava rápido demais aos olhos de Carlos e uma nuvem de poeira engoliu tudo. Com um forte solavanco tudo parou de girar, menos a cabeça de Carlos e a poeira invadiu seus olhos e garganta e ouvidos e então ele deu uma grande gargalhada e olhou para a noite que despencava no horizonte daquele fodido deserto gaúcho.
Ela tentava salvar alguma coisa e com as mãos sujas mantinha o semblante sério e compenetrado. Ouvi um profundo gemido vindo do fundo de sua caixa torácica e senti todo aquele tremor e tristeza percorrer seu corpo. Disseram que o incêndio foi rápido como uma lufada de vento e num fechar e abrir de olhos a casa tinha se transformado em uma gigantesca bola flamejante, e tudo foi sendo engolido por ela.
Ao vê-la me aproximei como se seu corpo fosse um ímã que atraía meu corpo de ferro, e sendo assim, nada eu poderia fazer senão me deixar levar. Percebi suas mãos queimadas que seguravam um livro ou o quê sobrou dele. Do outro lado da rua dois homens com roupas e capacetes vermelhos conversavam ao lado de um caminhão também vermelho. Um grupo de meninos olhavam excitados e donas de casa tagarelavam sem parar dizendo algo sobre um botijão de gás que era uma verdadeira bomba e o estrondo que deu.
Ninguém ali parecia muito interessado naquela garota que vestia uma saia de seda roxa e catava os restos entre os escombros. Nem em suas mãos queimadas, nem em seu corpo de ímã que atraía o meu corpo de ferro.
Enquanto olhavam a água turva, Joseias pensava num frango assado. Estavam mergulhados naquela merda. Isalda segurava as lágrimas com os olhos fixos num pequeno redemoinho que se fazia no riacho.
- Tenho vontade de aterrar este riacho – disse, Isalda.
- Porquê? – perguntou Joseias surpreso, o frango assado ainda estava na sua cabeça.
- Acho tão triste. Tão triste isto tudo. Nós, o riacho, a fome. Tentamos de tudo para sair desta situação. Os peixes que morreram aqui, morreram assim como nós vamos morrer. Sufocados, sem nenhuma chance. Queria jogar toneladas de terra neste riacho. Acabar com tudo.
Joseias pregou os olhos em Isalda.
- É só uma questão de sorte. De tê-la ou não – Argumentou Joseias. Isalda ficou quieta. Voltou-se para o riacho e suspirou profundamente.
- Sempre vivemos atolados na merda. Agora só resta este riacho com peixes mortos. Pensei que podíamos ter uma vida melhor. Tudo acontece contra.
Joseias voltou o olhar para o riacho. O redemoinho aos poucos se desfez.
- Eu queria comer um bom frango assado. Eu só queria isso. Um grande e suculento frango assado. Nada mais – disse Joseias.
- Quanto mais lutamos, menos temos. Estou cansada. Eu queria aterrar este riacho. Esquecê-lo. Esquecer os peixes que morreram aqui. Esquecer que tivemos esperança.
- Lembra quando eu saí semana passada? – perguntou Joseias.
- Lembro.
- Eu vi um galinheiro. Não fica muito longe daqui. Desde então lembrei o que tinha esquecido. Lembrei do sabor de um frango assado e isto não sai da minha cabeça. Um frango assado.
- Joseias…
- É isso. Esta noite vou lá. Vou lá e vou pegar um frango gordo. O maior, o mais bonito. Vou pegar um frango e nós esqueceremos este riacho. Vamos ter um jantar de rei. Eu mesmo vou assá-lo. Teremos um suculento frango assado.
Isalda levantou-se lentamente. Não tinha forças nem mesmo para o desespero. Estava entregue, os olhos marejados. Joseias pensava no frango, no galinheiro, no jantar de rei.
- A única coisa que tenho vontade é de aterrar este riacho. Não quero mais ele. Não quero mais ver esta água e lembrar dos peixes que morreram aqui, junto com nossos sonhos. Não quero mais este lugar. Sempre tivemos mais de menos. Você entende? Mais de menos. Estamos mergulhados na merda. Uma vida de merda.
No horizonte filetes alaranjados se desenhavam. As árvores lançavam monstruosas sombras sobre Isalda e joseias. A água turva não refletia mais a imagem dos dois.
- Vamos embora daqui – disse Joseias. – Essa será nossa última noite neste lugar.
Joseias esperou a noite, pegou uma faca e pediu para a mulher ferver uma panela com água para esperá-lo. Joseias tinha o frango em sua cabeça. Imaginava-se saboreando o animal, a cor dourada da pele assada, a carne branca se desmanchando em sua boca. Joseias colocou a faca na cintura e saiu.
Meia hora depois ele chegou ao galinheiro. Entrou sorrateiro e logo pegou um frango pelo pescoço. Num gesto rápido e certeiro passou-lhe a faca no pescoço. A pressa foi tanta e o golpe tão forte que a cabeça do animal foi decepada. Joseias deixou-a no chão e carregando o frango embaixo do braço saiu correndo até sumir entre as árvores mergulhadas na noite.
Isalda fervia a água quando Joseias bateu na porta. Entrou esbaforido, o coração a ponto de explodir. Ao ver Isalda sorriu triunfante e mostrou-lhe o frango com a cabeça decepada, sua mão estava tingida de sangue. Isalda não se importou e logo tratou de depenar o bicho escaldando-o com a água que fervia. Alguns minutos depois Joseias assava o frango sem esconder o sorriso no rosto.
O frango ainda estava na sua cabeça.
- Porra! Não agüento mais este calor.
Nada se movia, árvores, folhas. Apenas o mormaço nauseante e a poeira vermelha que levantava quando passava um automóvel na antiga estrada de chão batido.
Neste tempo de calor quase insuportável, Carlos tornou-se amigo de Juan. Juan é um cubano que surgiu do nada no bairro. Ninguém sabia ao certo sua verdadeira história. Nem mesmo Carlos, com quem ele iniciou uma grande amizade. Carlos sabia que ele amava a ilha e detestava os políticos que governavam o país. Também sabia que numa pequena balsa ele e mais quatro homens enfrentaram tubarões e chegaram a Miami. Isto ele contou a Carlos. “preferi enfrentar os tubarões que continuar naquilo que está instalado lá.” dizia Juan sem esconder a tristeza em seus olhos. Ele falava sobre quando andava pelo Malecon e observava o mar do Caribe estendendo-se no horizonte. “Lindo. O entardecer diante de mim com aquele mar, as cores que se formavam no céu. As mulheres com suas bundas fantásticas, zingando como se flutuassem sobre as sandálias desbeiçadas. Se insinuavam fazendo esquecer toda miséria e fome. Lindas”.
Carlos voltou do bar. Não estava lá Juan. Bebeu uma cerveja e voltou arrastando-se por causa do calor. Peito nu vestia apenas uma bermuda e chinelos. Entrou em casa e secou uma garrafa de água. Bebeu no gargalo e sentou em frente à porta de sua casa. Fumava um cigarro quando sua mãe o chamou com um berro estridente como se uma tragédia tivesse acontecido. Carlos tragou o cigarro e sua mãe surgiu.
- Aquele lagarto apareceu novamente para comer os ovos das galinhas.
Carlos soltou à fumaça.
- Onde ele está?
- Acho que ainda está lá atrás da casa no ninho das galinhas.
- Juan deixou a espingarda?
- Sim, sim! Disse que você ficasse com ela. Por causa dos roubos que andam acontecendo por aqui.
- Vou dar um tiro naquele lagarto.
Carlos deu a última tragada no cigarro e levantou-se. Entrou na casa e foi ao quarto, sobre o velho roupeiro encontrou a arma. Meteu as balas e saiu rápido.
- Vá antes que ele saia de lá – disse sua mãe.
Carlos contornou a casa o mais rápido que pode, tentando não fazer barulho. Espiou e viu o bicho lá. Teve nojo, engatilhou a espingarda e mirou. O lagarto estava estático, lambendo-se com aquela língua horrível. Carlos viu os ovos quebrados, o lagarto sobre o ninho esbanjando-se. A língua novendo-se para fora da boca, a barriga pesada, estufada com os ovos. O suor escoria no corpo de Carlos, suas axilas grudavam e sua mãe espiava a ação.
Carlos continuou mirando. Estava a alguns metros do lagarto que percebeu sua presença, Carlos segurou a respiração para não se mexer. Tinha que ser rápido antes que o bicho desse o fora. O lagarto virou a cabeça para o lado, Carlos tentou acompanhar com o cano da espingarda. Mirou no olho do lagarto, apertou o gatilho e disparou. O lagarto saltou com o impacto, ficou caído estrebuchando no chão.
- Acertou? – gritou a mãe de Carlos. Curvado e segurando a espingarda Carlos correu até o animal. Encontrou-o tremendo a cauda, o olho esquerdo esfacelado. O sangue espalhando-se sobre a cabeça do lagarto. A mãe de Carlos aproximou-se com cuidado e curiosidade. Ele está morto? – perguntou ela.
Ainda não – respondeu Carlos, engatilhando novamente a espingarda e dando um disparo no ventre do animal respondeu.
- Agora está.
carlos sentou-se em uma cafeteria. Acendeu um cigarro como fazia de costume. Pediu uma xícara de café e esperou. Enquanto esperava por Susana pensava na mulher do outro lado da rua. Observava o corpo dela, tudo estampado num gigantesco out-door. Hot Babes, dizia. Pensou em anotar no guardanapo o número do telefone anunciado. Só para ver se aquelas mulheres gigantes que invadiam a cidade existiam mesmo.
